Diagnóstico eleitoral · dados abertos do TSE e da Câmara Municipal
Ronilson Reis dobrou a votação em quatro anos e lidera a produção legislativa de Goiânia. Também gasta quase três vezes a mediana por voto e espalha a votação mais fino que qualquer colega do topo. Este é o retrato completo, urna por urna e real por real.
Quatro números explicam o mandato inteiro. Está entre os quatro parlamentares de maior produção legislativa da Casa, com quase cinco vezes a mediana. É o 34º mais eficiente em custo por voto entre os 37 eleitos. Tem a votação mais diluída do grupo de topo — 2,9 votos por seção, quando quem está à frente faz 5,4. E teve 61% da campanha bancada pela direção nacional do partido.
Traduzindo: o trabalho existe, é medido e é público. Ele só não está virando voto — e o dinheiro que deveria fazer essa conversão está sendo aplicado onde ela não acontece. Como a maior parte desse dinheiro é do partido, quem avalia o resultado não é só o eleitor.
De 3.184 votos em 2020 para 6.468 em 2024. Não é efeito de comparecimento: o eleitorado nominal de vereador em Goiânia cresceu 38% e ele cresceu 103%. A fatia dele na cidade subiu de 0,672% para 0,986%.
Subiu 16 posições — de 33º entre 873 candidatos para 17º entre 653. Trocou de partido no meio do caminho, do PODE para o Solidariedade, e cresceu mesmo assim.
Este é o número mais importante da campanha. A campanha de 2024 contratou R$ 569.202 em despesas — 74% do teto legal do cargo. Dividido pela votação, dá R$ 88,00 por voto.
A mediana entre os 37 eleitos é R$ 31,54. Ele está em 34º lugar em eficiência. Só três eleitos gastaram mais caro por voto que ele.
Custo por voto — eleitos selecionados, 2024
Despesa contratada dividida pela votação nominal. Barra menor é melhor. A linha tracejada marca a mediana dos 37 eleitos (R$ 31,54).
Henrique Alves fez 8.918 votos gastando R$ 80.711. Ronilson fez 6.468 gastando R$ 569.202.
38% mais votos, com sete vezes menos dinheiro. E dentro do próprio Solidariedade, Raphael da Saúde fez 5.026 votos com R$ 38.150 — 78% da votação do Ronilson, com 6,7% do orçamento.
A distribuição do gasto explica o custo por voto melhor que qualquer outra coisa. De cada R$ 100 gastos, R$ 57 foram para despesas com pessoal — 317 lançamentos, R$ 326.550 no total.
| Categoria | Valor | % do total |
|---|---|---|
| Despesas com pessoal | R$ 326.550 | 57,4% |
| Publicidade por materiais impressos | R$ 133.740 | 23,5% |
| Locação de bens imóveis | R$ 25.577 | 4,5% |
| Transporte e deslocamento | R$ 22.000 | 3,9% |
| Serviços de terceiros | R$ 22.000 | 3,9% |
| Combustíveis | R$ 21.750 | 3,8% |
| Impulsionamento de conteúdo | R$ 2.000 | 0,35% |
| Militância e mobilização de rua | R$ 0 | 0% |
Duas linhas dizem tudo. Zero em militância e mobilização de rua. R$ 2.000 em impulsionamento digital — 0,35% do orçamento, num universo em que 248 dos 685 candidatos a vereador de Goiânia investiram nesse item.
Compare com Sargento Novandir, que fez 9.762 votos: 54% do orçamento dele foi para militância e mobilização de rua. Custo por voto: R$ 17,02. Ou com Pedro Azulão Jr, 8.759 votos, que concentrou em material impresso, carro de som e impulsionamento — R$ 15,82 por voto.
A campanha comprou estrutura. O próximo ciclo tem espaço pra também comprar presença — sem abrir mão da estrutura que já funciona.
A receita declarada foi de R$ 571.476. Desse total, R$ 350.000 vieram do Fundo Eleitoral, repassados pela Direção Nacional do Solidariedade — 61,2%. O restante veio de doações, sendo a maior de R$ 100.000, e de recursos próprios.
Isso é, ao mesmo tempo, o maior ativo e o maior risco do mandato. Ativo porque significa que ele é candidato prioritário do partido. Risco porque a decisão de repetir esse aporte em 2028 não é dele — e o critério de quem decide é rendimento.
Votos obtidos por R$ 1.000 de Fundo Eleitoral — candidatos do Solidariedade em Goiânia
O partido distribuiu R$ 2,15 milhões entre seus candidatos na capital. Barra maior é melhor: mais voto por real repassado.
Leandro Sena recebeu R$ 50 mil e fez 5.113 votos. Ronilson recebeu R$ 352 mil e fez 6.468.
Em rendimento do dinheiro do partido, Leandro Sena é 5,6 vezes mais eficiente — e ficou fora da Câmara por 8 votos. Raphael da Saúde não recebeu nada de fundo e fez 5.026.
| Candidato | Fundo recebido | % do fundo do partido | Votos | Votos por R$ mil | Resultado |
|---|---|---|---|---|---|
| Ronilson Reis | R$ 352.250 | 16,4% | 6.468 | 18,4 | Eleito |
| Léo José | R$ 366.250 | 17,0% | 5.267 | 14,4 | Eleito |
| Welton Lemos | R$ 316.250 | 14,7% | 5.121 | 16,2 | Por média |
| Leandro Sena | R$ 50.000 | 2,3% | 5.113 | 102,3 | Suplente |
| Raphael da Saúde | R$ 0 | 0% | 5.026 | — | Suplente |
Os três eleitos do partido consumiram 48% de todo o Fundo Eleitoral distribuído pelo Solidariedade em Goiânia. Os dois primeiros suplentes, juntos, ficaram com 2,3%.
E o padrão se repete fora do partido: nove dos 37 eleitos receberam menos de R$ 1.000 de fundo, e a votação mediana desse grupo foi de 6.953 votos — mais alta que a do Ronilson. Pedro Azulão Jr fez 8.759 votos com 99,3% de recursos próprios e doações. Sargento Novandir fez 9.762 sem um centavo de fundo.
Esse é o ponto mais acionável deste diagnóstico: o dinheiro do partido não está comprando voto — está sustentando um modelo de campanha caro, e dá pra virar isso a favor dele mudando pra onde o mesmo real rende mais voto. Quem decide o repasse de 2028 tem acesso exatamente a esta mesma tabela — chegar nela com a conta arrumada é o que garante o próximo aporte.
Aqui está a consequência direta do modelo de campanha. Os 6.468 votos estão distribuídos por 2.265 seções em 93 locais — média de 2,9 votos por seção. São necessárias 1.225 seções para somar 80% da votação dele.
Quantas seções cada um precisa para somar 80% da própria votação
Menos seções significa voto adensado, base identificável e mobilização barata. Mais seções significa voto pulverizado, difícil de defender e caro de manter.
Sargento Novandir faz 9.762 votos em 413 seções. Ronilson faz 6.468 em 1.225.
Novandir extrai 5,4 votos de cada seção onde está. Ronilson extrai 2,9. É a mesma cidade, o mesmo eleitorado e o mesmo número de urnas — a diferença está em onde a base de cada um está concentrada hoje, e isso é o que dá pra recalibrar.
Vale calibrar um ponto aqui: a leitura comum de que ele seria um candidato "de território" pede ajuste. Pela medida usual — quanto da votação vem dos três maiores bairros — Ronilson faz 16,0%. Major Vitor Hugo faz 19,1%, Professor Edward 19,6%, Pedro Azulão Jr 19,9%. Ele é menos concentrado que os líderes da cidade, não mais.
Dito o limite, o ativo é real. No eixo Vera Cruz I, Vera Cruz II e Parque Eldorado Oeste ele faz 904 votos — 14% do total — com penetração entre 3,7% e 4,9%, contra uma média de 0,99% no resto da cidade.
Penetração por bairro — % dos votos de vereador do bairro, 2024
Onze maiores bairros por volume de voto dele. A linha tracejada marca a média dele na cidade (0,99%).
| Local de votação | Votos | Share do local |
|---|---|---|
| C. E. Profª Eva Assunção Conjunto Vera Cruz II | 176 | 5,92% |
| E. M. Profª Antônia Maranhão do Amaral Conjunto Vera Cruz II | 67 | 4,97% |
| C. E. Solon Amaral Conjunto Vera Cruz II | 177 | 4,52% |
| E. M. Profª Nara do Carmo Rezende Amorim Parque Eldorado Oeste | 121 | 4,47% |
| E. M. Laurindo Sobreira do Amaral Conjunto Vera Cruz II | 109 | 4,40% |
| E. M. Bernardo Elis Bairro São Carlos | 89 | 4,39% |
No Colégio Estadual Profª Eva Assunção, 1 em cada 17 votos de vereador foi nele.
E a conquista é recente: em 2020 ele era o 2º do eixo, com 497 votos e 3,74%, atrás de Márcio Siqueira (PT). Em 2024 virou o 1º, com 904 e 5,09%. O antecessor não disputou a reeleição — parte do salto é vaga aberta —, mas o share subiu de verdade.
Vale registrar o que sustentou esse crescimento e não se repete: em 2020, 25,4% dos votos de vereador do eixo foram para candidatos com registro indeferido — 4.508 votos anulados, o maior deles para Eduardo Grillo (PMB), que era o mais votado da região e estava inapto. Esse bloco voltou ao jogo em 2024 e ele foi quem mais capturou. Em 2024 o voto anulado no eixo caiu para 1,4%. A fonte secou.
A de fora tem nome: Jeovane Lopes (PRTB). Fez 1.300 votos na cidade, dos quais 752 dentro do eixo — 58% de tudo que produziu. Primeira campanha, ficou suplente, e chegou a 4,23% da praça contra 5,09% do Ronilson.
E já passou à frente num pedaço: em Conjunto Vera Cruz I, Jeovane é o 1º colocado com 265 votos contra 254 do Ronilson. A liderança do eixo hoje se sustenta em Vera Cruz II.
A ameaça de dentro é mais silenciosa e mais provável.
Ele foi eleito por quociente partidário. O Solidariedade fez 45.418 votos e conquistou três cadeiras. Quem ocupa essas cadeiras são os três mais votados da lista — e a distância dele para o quarto colocado do próprio partido é de 1.355 votos, ou 21% da sua votação.
A cadeia de risco é essa: Jeovane não disputa a cadeira do Ronilson diretamente — ele é de outro partido. O que ele faz é erodir a votação do Ronilson dentro de Vera Cruz. Uma perda de 1.400 votos ali, combinada com o crescimento natural de um colega de chapa, entrega a cadeira a um correligionário mesmo que o Solidariedade mantenha as três vagas.
Raphael da Saúde, o 5º da lista, fez 5.026 votos com R$ 38 mil e é o 1º colocado no Jardim Novo Mundo — bairro onde o Ronilson tem 126 votos e ocupa a 36ª posição. Ele tem território próprio e custo baixo. É o perfil que cresce.
Varrendo as 567 pautas de sessão publicadas pela Câmara entre 2024 e 2026 — 1.188 matérias distintas que foram a plenário — Ronilson Reis aparece em 179: autor de 54 e relator de 125. É o 4º maior volume entre os 37 eleitos, quase cinco vezes a mediana da Casa, que é de 38.
E ele acelerou depois de reeleito: nas pautas de 2024 foram 46 matérias; em 2025 e 2026, 138. Mesmo corrigindo pelo número de pautas de cada período, é quase o dobro de intensidade.
| Vereador | Partido | Autoria | Relatoria | Total | % relatoria | Votos 2024 |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Willian Veloso | PL | 80 | 140 | 220 | 64% | 5.491 |
| Geverson Abel | Republicanos | 32 | 156 | 188 | 83% | 9.220 |
| Anselmo Pereira | MDB | 76 | 104 | 180 | 58% | 7.951 |
| Ronilson Reis | Solidariedade | 54 | 125 | 179 | 70% | 6.468 |
| Igor Franco | MDB | 73 | 86 | 159 | 54% | 8.057 |
| Isaías Ribeiro | Republicanos | 81 | 53 | 134 | 40% | 7.657 |
| Aava Santiago | PSDB | 64 | 22 | 86 | 26% | 10.482 |
| GCM Romário Policarpo | PRD | 45 | 0 | 45 | 0% | 11.496 |
| Major Vitor Hugo | PL | 31 | 2 | 33 | 6% | 15.678 |
| Professor Edward | PT | 4 | 5 | 9 | 56% | 13.573 |
As quatro últimas linhas contam a história. Os quatro mais votados de Goiânia estão todos na metade de baixo da produção. Professor Edward, segundo mais votado da cidade com 13.573 votos, tem 9 matérias — contra as 179 do Ronilson.
A correlação entre volume de produção legislativa e votação, entre os 37 eleitos, é de r = 0,036. Praticamente zero. Produzir na Câmara não basta sozinho — precisa virar comunicação pra render voto também.
Relatoria é trabalho de verdade: aprimorar o projeto do colega antes de virar lei pra cidade.
Das 179 matérias, 125 são dele como relator — analisar, corrigir, dar parecer técnico numa proposta alheia em comissão. É trabalho indispensável pra Casa funcionar bem. O problema não é o tipo de trabalho: é que o crédito público dessa entrega fica sempre com o autor do projeto, nunca com quem relatou. Isaías Ribeiro inverte a conta — 40% de relatoria — e Aava Santiago, 26%.
Entre o que ele assina como autor — 40 requerimentos —, a maior fatia é pedido de sessão especial em homenagem: 26, ou 65%. É prática comum na Casa, não exclusividade dele — Anselmo Pereira tem 81% de sessões especiais, Isaías Ribeiro, 91%. Pedidos de informação ou fiscalização somam dois, 5% do total — e é aí que mora a oportunidade: espaço pra assinar mais coisa com o nome dele, sem abrir mão do resto.
Aava Santiago produz metade do volume do Ronilson e tem 62% mais voto. A diferença não está em quanto se trabalha — está em qual trabalho aparece pra fora. O dela é autoral e fiscalizatório: rende manchete, rende embate, rende nome. O dele é relatoria de comissão e sessão de homenagem: entrega serviço técnico real pra Casa, mas o crédito não sai de dentro dela.
É por isso que 179 matérias convivem com 2,9 votos por seção. E é a oportunidade mais barata deste diagnóstico inteiro — não exige trabalhar mais, exige comunicar diferente o que já é feito.
Nas nove urnas do eixo Vera Cruz há 28.119 eleitores aptos. Compareceram 20.264. Faltaram 7.855 — 27,9%, praticamente igual à média de Goiânia, que foi de 28,2%.
Aplicando a taxa de conversão que ele já tem no território (5,09% dos votos válidos), esse contingente representa cerca de 400 votos — 44% de tudo que ele faz no eixo hoje, disponíveis sem disputar um único eleitor com adversário.
Duas urnas puxam a abstenção para cima e são as mais fracas dele no eixo: Escola Neio Lúcio Naciff (33,2% de abstenção) e Colégio Estadual João José Coutinho (30,1%).
R$ 326.550 em pessoal produziram 2,9 votos por seção. R$ 90.200 em militância de rua produziram, para o Novandir, 5,4 votos por seção e 9.762 votos totais. A troca de composição, mantido o mesmo orçamento, é a alavanca isolada de maior impacto.
Meta concreta: sair de R$ 88,00 para a mediana dos eleitos, R$ 31,54. Ao mesmo orçamento, isso é uma campanha de 18 mil votos.
Jeovane Lopes já lidera Vera Cruz I por 11 votos e tirou 58% da votação dele do eixo. A liderança do território hoje depende inteiramente de Vera Cruz II. São seis urnas nominais para defender, todas mapeadas neste documento.
A relatoria é trabalho real e não é o problema — é estrutura da Câmara: o crédito de um parecer fica sempre com o autor do projeto, nunca com quem relata. O que dá pra mudar é o que ele já assina como autor, hoje majoritariamente sessão de homenagem. O caminho não é relatar menos: é somar mais autoria própria ao que já faz. Menos homenagem, mais pedido de serviço com endereço.
E o que já existe precisa chegar à base: comunicação dirigida às nove urnas do eixo, nominalmente, com nome de rua e de escola. Com R$ 2.000 de investimento digital em 2024, há espaço óbvio de teste a custo baixo.
É o único crescimento que não exige tirar voto de ninguém. Começar pelas duas urnas de maior abstenção do eixo — Neio Lúcio Naciff e João José Coutinho —, que são também as de menor penetração dele.
A margem sobre o 4º colocado do Solidariedade é de 1.355 votos. Raphael da Saúde fez 5.026 votos com R$ 38 mil e domina o Jardim Novo Mundo. Leandro Sena fez 5.113 com R$ 50 mil de fundo — 5,6 vezes mais voto por real que o Ronilson.
A disputa pela cadeira, em 2028, começa dentro da própria chapa, e o primeiro round é a divisão do Fundo Eleitoral. Chegar nessa conversa com custo por voto arrumado é o que garante o aporte; chegar com R$ 88,00 é o que faz o dinheiro mudar de mão.
Nenhuma pesquisa, nenhuma entrevista, nenhuma informação de bastidor. Boletim de urna do TSE, prestação de contas eleitoral e as pautas publicadas pela própria Câmara — tudo aberto, tudo conferível.
O que está aqui é o retrato. O passo seguinte seria transformar os cinco movimentos em plano com prazo, responsável e meta, medindo urna a urna até 2028.
Se fizer sentido, a conversa é essa. Uma hora, sem compromisso, para montar junto o plano dos primeiros 90 dias.
Marcos Deogenes e Guylherme — análise de dados eleitorais e estratégia de campanha.